De quantos paus se faz um ser humano?
Ou
Eu preciso de alguém que me convença a sair de casa
*Aviso*
Este é um post indignado, escrito enquanto o sangue ainda está quente. Desencontrado, parágrafos não se alinham e eu certamente seria reprovada em redação com ele. Se está procurando por coerência, vá à banca, compre uma Carta Capital e goze com Mino Carta.
Estou triste por Raul. Eu não conheço Raul. Eu não tenho idéia de quem foi o pai de Raul. Só sei que, aos cinco anos, ficou orfão hoje. Alguém resolveu brincar de super-poderoso com seu pai, depois de uma briga de trânsito.
(Tenho medo de pessoas que portam uma CNH. Porque é praticamente uma licença 007. É quase que dizer à alguém: ´Atire primeiro. Ou passe por cima. Ou jogue no poste. Pergunte depois´).
Uma das minhas teses, uma das minhas convicções pessoais (sou farta em convicções), reza que você precisa preencher pré-requisitos básicos antes de ser considerado Humano. Fisicamente, talvez, seja fácil. Desde que o objeto em questão seja fruto de um óvulo, um espermatozóide e alguns meses de gestação, fica provado que é Humano.
Mas, se outros aspectos passam a ser considerados, porcentagens consideráveis dos bilhões que aqui coabitam são sumariamente reprovadas. E sem corte de apelação.
Respeito e tolerância não têm nada a ver com religião. É ponto pacífico que você precisa respeitar e tolerar para ter recíproca.
Assim como existe a bondade inata - presente nessas pessoas que adotam centenas de crianças, que doam seus orgãos, que dedicam a vida à uma outra vida, à uma causa - também existe a maldade inata.
E não acredito em antídoto para nenhum dos casos. Para os maldosos, o´sistema´ não resolve, dinheiro não resolve, Cristo Salva não resolve, Sou da Paz não resolve, Nietzche e Freud tampouco.
Não há cura para bondade inata, para felicidade de todas as crianças perfilhadas. Por outro lado, não há cura para maldade inata, para infelicidade de Raul.
Eu vejo malvadeza prazerosa no chefe e na criança que gostam de humilhar, em policiais que fazem questão de torturar, nos chineses que insistem em matar bebês de inanição, nos animais que matam após uma briga de trânsito e em toda a sorte de tipos. Em todo lugar é possível ver esses maltrapilhos de alma, esses sujos.
Para falarmos dos casos recentes, pago cem reais à qualquer um que, sem basear seus argumentos em religião, acredite na redenção do assassino de Liana Friendenbach e Felipe Caffé. (À época do crime tive muita vontade de escrever àqueles pais. Escrever o quê eu não sei, mas ainda é uma vontade que não calou).
Dobro a oferta para quem provar que os assassinos do menino João Hélio podem conviver em sociedade. Que podem tomar conta do seu filho enquanto você vai à feira.
Triplico para quem explicar à Raul que o assassino de seu Pai é um bom pai de família, pagador de impostos, trabalhador e só o fez orfão porque perdeu a cabeça em um dia de sol quente.
Que ninguém entenda isso como apologia à pena de morte ou nada assim. Não é o ponto em discussão aqui. Só estou tentando dizer que, alguns seres, fisicamente parecidos comigo e com você, não preenchem o check-list. Não reúnem as condições necessárias para serem Humanos.
Um dia, talvez a Ciência me dê razão. Um pesquisador de alguma Universidade da Polônia ou do Uzbequistão pode legitimar minha tese.Nesse caso, faço questão dos royalties.
Eu ainda estou recolhendo subsídios para determinar qual o peso do fator genético e qual o peso do fator ambiental no desenvolvimento dessas habilidades cruéis em alguém. Já estou certa de que ambos pesam, em maior ou menor grau, dependendo da situação.
Até que haja solução paliativa para a miséria existente em viver, uma idéia pode ser não sair de casa. Eu não enxergo nenhum outro meio de evitar o contato íntimo, pessoal e fatal com um psicopata.
Os valores que tornam a vida possível têm que ser inerentes. Isso precisa acordar e dormir com você para que seja real, como alguém que escova os dentes de manhâ e à noite, sem falhar. Você precisa ser factível, acreditar e viver aquilo em que acredita. Desde que o seu limite acabe quando o do outro começar estará tudo bem.
Uma definição corrente da certificação ISO2000 – moda nos anos 90 – é: Diga o que faz, faça o que diz, prove que faz o que diz fazer.
Viver dignamente tem bastante dessa regrinha.
No final das contas, na medida em que esses casos se tornam freqüentes, vamos passar a comemorar um dia que termine sem que tenhamos encontrado um doente desses pelo caminho.
Se você saiu de casa e não tomou uma bala perdida, não foi esfaqueado em troca de um celular, não tomou um tiro depois de uma briga no farol, então tem mais é que estar feliz.
Para mim, Homo Sapiens é o único animal que, por definição, pode raciocinar e também é o único que só faz merda.
Alguém aí já viu um leão fazendo merda? Um macaco? Uma barata? Não, né.. E um homem quarentão, vermelho de raiva, arrumando confusão? Alguém aí já viu? Hã? O quê? Você vê dez desses todos os dias?
Ah, entendi. Olha que interessante: o quarentão, dos supracitados, é o único que ´pensa´.
Seres humanos são pródigos em violência e estupidez como nenhum outro ser foi ou será.
Em tempos imemoriais, juntava-se carne humana ainda viva e atirava-se ao fogo e aos leões. Os interessados podem encontrar em Quo Vadis* descrições exatas dos gritos de crianças, clamando por suas mães, enquanto queimavam em madeira verde.
Há pouco, escravizava-se gente sem o menor pudor. (Lamento que ainda hoje se faça isso, extintos mesmo só os navios negreiros).
Há ainda menos tempo, descobriram como derreter gente, usando-se fissão nuclear. Qualquer bom livro sobre a Segunda Guerra trará relatos de olhinhos puxados cravados em faces sem pele. Se você for um entusiasta, a literatura sobre Joseph Mengele é interessante. Faz qualquer história competente de terror parecer conto da carochinha.
Aos contemporâneos, recomendo estudos avançados sobre as técnicas de mutilação africanas nos dias de hoje. Se vão cortar seu braço com uma machadinha, você tem o direito de escolher se quer manga curta ou longa.
Em suma, nós só paramos com uma atrocidade para começar outra.
Isso realmente me dá vontade de recolher panelinhas. De ficar em casa, afundada no sofá, o lugar mais seguro do mundo.
Enquete da semana
O valor da vida pode ser mensurado? Qual o maior homicida de todos os tempos? O mais cruel?
a. Hitler
b. Bush´s
c. Champinha
d. Assassinos do menino João Hélio
e. Júlio César
f. Assassino do pai de Raul
g. Piloto do Enola Gay
Um mês de salário para quem responder.
Para acabar com esse post, que já me fez mal…
Eu digo, e repito: Eu tenho desonra de ser humana. Eu tenho vergonha de ter um cérebro. Eu tenho medo de gente. E, sim, eu torço pela extinção dessa raça. A.S.A.P.
Quase dez anos depois, dou razão ao Décio, meu professor de PD, azedo feito seu Lunga. O sonho dele era ser uma barata, pelo menos essas resistiriam às explosões nucleares.
Um beijo para o meu Pai, pra minha Mãe, pra Raul e para você, que teve a humanidade de ler até o final.
*Quo Vadis, Henryk Sienkiewicz. Nobel de Literatura em 1905.