Terráqueos,
Perdão, mas isso precisa começar com um quem sou eu.
Filha de Eliezer e de Wilma.
É, é isso, sou Ná – filha de Wilma. É assim que minha família se refere à mim.
E também sou Carol – mulher do Filipe. É assim que as pessoas do bairro me conhecem.
Irmã de Emerson e de Henry.
Mãe de Luísa.
Esposa de Filipe.
Sobrinha de Leda, de Valmira, de Manoel e de mais umas 25 pessoas.
Prima de Fernanda, de Marcela, de Michele e de mais umas 178 pessoas.
Ah, claro, irmã de coração de Nina e Laly.
Tia de coração de Isa.
E amiga de verdade de umas poucas e tolerantes almas, mas pelo menos é de verdade, do lado esquerdo do peito.
Nasci em um oito de março e adoraria saber se estava frio ou calor, sol ou chuva, só para poder escrever aqui, mas não sei.
Nasci em São Paulo, na Aclimação e também não sei por que isso é motivo de orgulho, mas é.
Morei em Santos, que jamais vai deixar de ser a minha casa. E que se tornou o relicário de muitas das minhas lembranças mais adoradas.
Moro em São Paulo. Que é caótica, feia, errante, mas que não deixa de ser minha imagem espelhada. Sou em veias, músculos e celulite o que São Paulo é em concreto e poluição. Sou em beleza e unhas feitas o que São Paulo é em Liberdade e Paulista.
Sou irremediavelmente prolixa, teimosa, mal humorada e risonha.
Sou perfeccionista e meu mais recente projeto versa sobre a dominação do mundo. Porque realmente preciso fazer isso nessa vida.
Eu não gosto de esperar.
Eu não gosto do amargo que pequenas alegrias deixam para trás quando se vão.
Eu não gosto do cheiro de mofo que acompanha as lembranças.
Eu não gosto do futuro e não gosto do passado.
Eu não gosto de não dominar o mundo. Não domino nem o meu mundo, para usar de verdade.
Eu não gosto de vegetais.
Eu não gosto refrigerante sem gás.
Eu não gosto de distância imposta.
Eu não gosto do silêncio da dor.
Eu não gosto dessa inquietação saltitante, palpitante dentro de mim. Desse não saber, desse despropósito esperando por liberdade.
Eu não gosto de fundos de gavetas acumulando contas.
Eu não gosto de ler textos de terceiros quando penso que poderia perfeitamente tê-los forjado. (Dindi, Raiter, Clarice e Fernando: isso É com vocês).
Eu, não, gosto, da, maneira, como, uso, vírgulas.
Eu não gosto ir ao médico.
Eu não gosto de ligar em serviços de (des)atendimento ao cliente/telegerúndios.
Eu não gosto de vizinhos. Pessoas têm, por natureza, duas personalidades. A que as faz cidadãs de bem e a que exercem quando estão no papel de vizinhas.
Eu gosto de sentir o calor do corpo dos meus.
Eu gosto de ouvir a voz dos meus.
Eu gosto de ganhar dinheiro.
Eu gosto de ler.
Eu gosto de bolos.
Eu gosto de silêncio. Desde que não haja dor presente.
Eu gosto de ouvir Billie Holiday enquanto alimento meus bobocas.
Eu gosto de conversar.
Eu gosto de rir.
Eu gosto de minha infância. Alilás, das minhas infâncias. Da que acabou e da que vivo agora.
Eu gosto de saber que sou boa fazendo coisas. E sou boa em um monte delas.
Eu gosto das reuniões de amigos, em casa. Todas aquelas pessoinhas lindas juntas, rindo até doer o maxilar.
Odeio ver poesia escorrendo pelo ralo.
Odeio sentir frio.
Odeio sentir fome.
Odeio falar com quem não entende.
Odeio minha impaciência. Eu deveria saber o que fazer com ela, tendo o tempo me provado tantas vezes do que é capaz.
Estou sentada sobre minha caixa de Pandora.
Estou me descobrindo anti-social.
Estou reclamando de tudo e de todos. Eu não serei eu se não fizer isso.
Estou com um estoque inesgotável de palavrões. Por que falar palavrão é tão gostoso?
E acaba assim, com essa cara de coisa inacabada.
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