Aventuras macabeuzas

Quando um homem morre é como se uma biblioteca inteira se incediasse.

3 Fevereiro, 2008 · 2 Comentários

Senhores,

 Ontem foi um dia tingido de coloridos diferentes,  cores frias e quentes, tristeza e alegria.

De tarde, recebi um pacote. Dentro, um livro de fotos de Estocolmo, um cartão de uma delicadeza e um carinho muito grandes. Veio da Suécia, enviado por Anna e Deri, agradecendo a estada aqui em casa.

Eu os conheci na rodoviária Tietê, no guichê da Reunidas, comprando passagens para Paraty. Alguma coisa estava errada na passagem vendida à eles, mas o rapaz do guichê não os entendia. Ofereci ajuda, acertamos a questão das passagens e começamos a conversar.  Três minutos depois, já estava combinado que eles pernoitariam em minha casa, voltando à rodoviária para o embarque na manhã seguinte.
Foi em janeiro último, sábado, muita chuva, muita.

Em casa, conversamos bastante, falamos sobre é como é viver lá e aqui. Jantamos pizza e, de sobremesa, oferecemos toda a sorte de doces disponíveis na Doceria aqui perto de casa. Foi insólito quando eles começaram a tirar fotos da mesa.

Na manhã seguinte, os levamos à rodoviária, para o embarque. Em um ato de molecagem, após as despedidas, Deri jogou algum dinheiro dentro do carro, saiu correndo e entrou no elevador. Já decidi que vou doar a quantia e enviar o comprovante, eu não posso aceitar.

Voltando ao pacote, fiquei feliz. Achei carinhoso, delicado. E não vou responder por email, por emeesseene. Vou escrever um cartão, vou dizer o que não disse antes. Escrevendo e indo até o Correio, também aproveito para mandar os postais de Mekki para o Iraque, que estão na minha bolsa há um mês, desde que voltei de férias.

(Mekki também merece um post, não é todo dia que alguém larga o american way of life e se muda para o Iraque).

Estou enrolando desde ontem para escrever a resposta, não sou prolixa em língua estranha como sou em português.
Vou escrever que os espero aqui outra vez, que São Paulo é feia, mas também é linda, também é bacana, e eu gostaria de mostrar. Vou dizer que recebi muito mais do que qualquer brigadeiro e chuveiro quente que eu tenha ofertado. Aprendi que na Suécia as casas têm duas cubas na cozinha, para lavagem da louça, que o nosso café e a pizza são muito diferentes de pizza e café em qualquer outro lugar.
Escreverei que acredito que de tempos em tempos, quando as coisas estão morninhas, temos ou cavamos a oportunidade de tecer  um pouquinho de história, das nossas histórias. E eles são para mim, assim como nós para eles, um capítulo imperdível de novela.
Que me descobri boba, muito boba quando, sem pensar, ao pegar o pacote e reconhecer imediatamente a letra de Anna no envelope, soltei um ´Oh, God!´. Foi involuntário, juro.

 É por histórias assim e por tantas outras que acredito em um ditado africano: Quando um homem morre é como se uma biblioteca inteira se incendiasse.

 E enquanto eu ganhava o dia com meu pacote, perto da Cordilheira dos Andes, um camarada perdia o dia. Perdia a filha.

A bebezinha estava programada para nascer no meu aniversário, em cerca de vinte dias. Mas a mãe entrou em trabalho de parto prematuro e Luana não sobreviveu. E eu só pude dizer que não sabia o que dizer. Que a dor de perder um filho deve ser pesada demais para que se possa ser consolado. No meu egoísmo de mãe, não quero nem ouvir falar de dor como essa. Uma vez li ou ouvi que pais não devem sobreviver aos filhos, é anti-natural. Concordo com isso. Imagino que todo pai e mãe deve concordar.

Por certo, a vida continua. Inclusive para o camara, a mulher e o pequeno Inácio.
Que vai doer, pelo resto dos dias, mas haverá uma maneira de lidar com isso.

Só sei que toda vez que eu inspiro, alguém ganha o dia; toda vez que eu expiro, alguém perde e vice-versa. Toda vez que amanhece, a população mundial já não é mais a mesma. Muitos morreram, muitos nasceram, muitos estão sendo gerados.

E é por tudo isso e mais um pouco que não posso aceitar o dinheiro.
Porque algumas coisas não têm preço. E pra todas as outras eu, felizmente, não tenho um Mastercard.

(Depois explico por quê não tenho um cartão de crédito. Basicamente, porque não concebo a idéia de trabalhar para dar dinheiro de graça à alguém).

Um beijo para o meu pai, pra minha mãe, pra você, para Luana e seus pais, para Anna e Deri.

 

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2 respostas so far ↓

  • dindimacadoe // 3 Fevereiro, 2008 às 11:18 pm

    Acho que, todos os textos que você postou aqui, é um dos mais tocantes, poesia pura extraída do cotidiano. Esse assunto da Anna e do Deri ainda rende aqui em casa com a minha mãe, e nós duas chegamos a conclusão que sua atitude de ofertar pouso para dois estrangeiros não precisaria ser considerado um ato de coragem, e sim de hospitalidade e solidariedade, apenas. Menos é mais, né? Valeu por ressuscitar este blog antes que ele se tornasse um mausoléu na rede. Beijocas!

  • Ariel // 3 Fevereiro, 2008 às 10:36 pm

    Oi queridona! Como já te disse uma vez, espero ansiosamente o dia que vc irá lançar o seu livro… Vou querer um exemplar autografado e exclusivo!

    Só de histórias do cotidiano que vc possui já poderá render uma saga!

    Beijão =*

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