Ou
Sou uma Mãe incompetente
Baby Doe chegou em casa portando as primeiras provas oficiais que fez.
Eu estava ansiosa desde a data das avaliações. Ansiosa pelos resultados, ansiosa pela reação dela e sem muita expectativa de notas, porque não é fácil ser mãe de um gênio. Gênios só fazem o que querem e quando querem. Vai que nos dias de avaliação ela acordou em um dia ´não quero, não faço´…
Peguei as folhas todas e comecei a devorar. Um 10 em História, um 9,5 em Português, um 7,8 em Matemática (em alguma coisa ela tinha que puxar a mim). Fiquei feliz, claro. Sou mãe, sou mortal.
Baby Doe é que não se mostrou tão feliz assim. Está chateada, porque tirou dez e não cem. Quer uma nota cem, dez é pouco (é, admito, praticamente uma Bozolina em miniatura, buscando a perfeição).
Eu ainda não sei se Baby Doe é uma sortuda ou uma azarada. Talvez, os dois.
Eu a cobro horrores quando o assunto é escola, mas não represento vinte por cento da cobrança de meus pais, quando eu era o personagem filha da História.
Minha Mãe não me ensinou a lavar louça, cozinhar arroz, fazer bolo. Nunca permitiu que fizéssemos serviços domésticos. Só tínhamos uma obrigação: estudar. E fazer isso direito, com perfeição.
Eu nunca tive medo de provas. Porque a prova aplicada em sala seria, certamente, mais fácil do que as intermináveis horas de chamada oral em casa.
Éramos absolutamente proibidos de fazer contas e tabuadas nos dedos. Tinha de ser de cabeça. E rápido.
Cadernos de caligrafia? Eu calculo em uns vinte para cada filho, preenchidos completamente da primeira linha da primeira página à última linha da última página.
Importante dizer que nunca houve uso de força física ou psicológica por parte de meus pais. Estudo fazia parte da rotina de todos nós, tão normal quanto tomar banho e ir à padaria.
E eu sou uma incompetente. Jamais vou conseguir dedicar tamanho esmero à Baby Doe. Em parte, porque o tempo é escasso. Oito horas semanais para dormir, incontáveis horas trabalhando, setenta e duas horas semanais nos deslocamentos por essa cidade maluca e por aí vai. E também porque não tenho o dom de minha Mãe, não acho que eu seja uma Mãe profissional. Pelo contrário, fico desesperadamente procurando um manual de instruções para Mães.
E ele não existe. Meu irmão costuma dizer, se não está no Oráculo, não existe.
Você encontra instruções detalhadas sobre troca de fraldas, alfabetização, brincadeiras para desenvolver isso e aquilo. Mas não encontra nada que fale como lidar com o DNA que só a sua cria tem, que lhe ensine como gerir as crises egocêntricas, de identidade, de paladar e de sono que só uma pessoinha no mundo tem.
Tendo criado a minha maneira de exercer esse papel, tenho um deleite especial em vê-la descobrindo o mundo. E é inevitável associar com as minhas próprias.
Passo um tempo enorme pensando nos paralelos entre uma coisa e outra. E o dobro de tempo tentando calcular a melhor maneira de lidar com todos os mundos que ela ainda irá conhecer.
Não tenho idéia de como vai ser. E nem quero saber. Eu descubro meu universo, todos os dias e assim é e será com ela. E há ainda um terceiro mundo, a mistura do que veremos juntas.
De verdade, eu só espero que a expedição dela seja tão prazerosa quanto a minha foi e é.
PS.: Antes que alguém ache que minha infância foi um porre, esclareço que toda a gratidão existente em mim está direcionada aos meus pais, e à maneira como eles nos formaram.
Costumo brincar que, poderia faltar arroz e feijão na casa de meus pais, mas livros jamais!
Um beijo para meu Pai, pra minha Mãe, para Baby Doe (parabéns pelas notas, well done!), para todo mundo com o dom supremo de educar e para você.