Meninos, meninas e similares. Calipígios e onanistas;
Eu adoro cheiros. Eu associo coisas e pessoas, épocas e fatos à cheiros. Eu adoro perfumes, não vou negar a vaidade que há em saber que as pessoas me reconhecem pelo cheiro. Que sabem que eu cheguei sem precisar se virar para olhar.
Dezembro tem um cheiro quente, que só ocorre em dezembro. Trinta de novembro ainda não tem esse cheiro, em primeiro de janeiro ele já foi embora.
Coca-Cola exala cheiro de Cola-Cola gelada na mamadeira, deitada no sofá, criança, em dia quente de verão.
Chá Mate significa seis horas da manhã, hora de se arrumar para ir para a escola. Um copo de chá mate, três bolachinhas cream cracker.
Vanilla. Usamos eu e Sister Doe o mesmo perfume. Vanilla cheira Sister aqui em casa, noite de domingo chuvosa, contando que estava grávida. Eu não conseguia sair de perto do pescoço dela.
Bacon é a janta depois da escola. Purê de batatas no fogão, quase pronto.
Protetor solar é sinônimo de rosto engordurado, para me proteger da marca do óculos.
Seiva de Alfazema. Cheira como o banheiro de minha avó e os presentes de final de ano.
Amaciante expressa o dia da troca de lençóis.
Tang de pêssego. Visita à casa de uma Friend Doe, dia quente, depois do trabalho. Ela faz o Tang de pêssego mais incrível que eu já tomei na vida.
Couro é sinal de tarde de compras no shopping. Voltar para casa com Aquela Bota, com Aquela Bolsa. E daí por diante……
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Pão de Açúcar. Essa companhia capitalista desalmada, com lojas vinte e quatro horas, berrando gaste e engorde a qualquer hora do dia ou da noite.
Eu vivo no Pão de Açúcar depois do trabalho. Meia noite, uma, duas da manhã.. ´Ah, fica no caminho, vamos parar e comprar só um refrizinho para acompanhar a janta´. Quando você se dá conta, trintão – na melhor das hipóteses – fica no caixa.
É um dos raros lugares em que se pode comer um bem-casado sem ter de encarar festa de família para isso.
Em uma dessas visitas, eu o vi. Escondidinho. Quase não acreditei. A cara estava boa, no tom certo. Sete merréis. Resolvi tentar, mesmo sem esperança, depois de tentativas fracassadas. Tentei faz-lo uma vez, não rolou. Eu comprava um outro, no mercado sulista comprado pelos franceses e também não rolou. Resumindo, parte da minha essência estava perdida sem ele.
Viemos embora, Baby vai trocar de roupa, John vai guardar o carro. Vou para a cozinha, começo a desembalar as compras. Pego o pote, bonito por sinal. O coração dispara. Será que dessa vez dá, pelo menos, pro gasto? Luto com o vidro e a tampa. Suo, venço, consigo abrir. E naquele instante, revivi minha infância. O cheiro de calda quente vindo do panelão de ambrósia de minha Mãe; o cheiro da cozinha de minha casa; o cheiro da sobremesa de Ano-Novo; o grito poderoso: ´Não encoste! Ainda está quente, vai te dar dor de barriga. Se eu te pegar perto dessa panela você vai ver o que é bom para tosse´. E então eu ficava ao lado do fogão, exercitando a paciência, esperando esfriar, cheirando a colher, cheirando o papel toalha que cobria o caldeirão.
Eu não sei por quanto tempo fiquei à porta da geladeira, sentindo os pés frios, cheirando aquele pote de ambrósia. Podem ter sido cinco minutos, podem ter sido sessenta. Não faço idéia. Mas essa é a fábula de como o Pão de Açúcar se tornou minha máquina do tempo.
Agora, se quero sentir o cheiro dos anos passados, sem naftalina e sem mofo, passo por lá e trago um pote de ambrósia para casa.
Não posso terminar sem esclarecer que ambrósia é coisa de paulistano. O nome do doce, de verdade, é doce-de-leite da Bahia. Foi assim que minha Mãe me ensinou e é assim que tem que ser.
Um beijo para meu pai, pra minha mãe, pro feliz comprador que botou esse negócio pra vender e pra você.
*Aos interessados, o tesouro em questão é vendido sob a marca Pão de Açúcar mesmo. E a fábrica, embora nunca consiga fazer um como o de minha Mãe, é bem competente.
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